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sábado, 3 de outubro de 2020

Gueto

Um reino com deveres afins. O direito de conhecer era maior que tudo, o passar do tempo o deglutiu,  criou o ouvinte cego e mudo.


Um gueto formal e chavões perfeitos para qualquer escolta. Ao oprimido, vítima, a lágrima da dor, colheita, a descarga da dor, revolta.


Reino onde o coração parecia aquecido, mas chegando mais perto, pisado. Lugar tomado do criador, que tudo vê antecipado.

Poder de mandar e punir inebria, ainda mais por quem não teve nenhum poder na vida. Os devotos dos reis da escada em descida. 


Mas a origem não assiste de braços cruzados, torturas, indiferente. Sabe hora e jeito. Sabe quem é quem, bicho e gente.


( Olinto Vieira)

A Fila

A fila está desorganizada, irresignada, fila revolta, 

parece uma multidão. 

Gente com esperança, 

alguns com ânsia 

de algo que não sabem definir. 

Não há organizadores, nem senhas, 

abandonaram, todos, as mascaras.

Ha um frenesi, 

passos giram, 

de trás para frente,  descontrolados, 

não se vê caminho, 

se ouve murmúrios. 

Não há mais gurus, professores, questão de ordem, juízes, intelectuais, suplentes,  presidentes , pobres ou ricos. 

Ha a fila!


E o Horizonte, colossal, observando a todos, 

presos em sua liberdade de ir e vir.

Uma liberdade está além de qualquer pandemia, de ficar em casa.

Falo por mim:

' La vamos, condenados por nós mesmos na busca da felicidade.

Que nem sabemos decifrar.'


Um se acalma e olha o firmamento,  sente a paz ultrapassando o medo. Sentimento contagia de saudade, de um tempo que já viveu.

Tempo etéreo, não esse que tentamos aprisionar em relógios.


A fila não tem frente nem fim. 

Então seja você, com toda vibraçao

verdadeira que o Universo pulsa dentro de você.


( Olinto Vieira)

Mergulho

Fugindo, há muitas bandeiras a levantar para cobrir a sua.

Há ditaduras, perseguidos, fome, bizarrices mil.


Fugindo, você pode lutar a favor de qualquer uma delas. É mais fácil do que enfrentar um quarto fechado e luzes apagadas, sem sono.


Há várias cidades e em cada uma delas há oprimidos e opressão. Gente a ser defendida e outras a serem combatidas. Desde que o mundo é mundo.


Fugindo, você pode escolher a causa a se engajar, desde que não seja preciso olhar para o espelho, para o seu olho; para dentro de si.


É como escolher trilhar uma estrada sinuosa, ocupando-se com as curvas, do que uma estrada reta, livre para pensar.


Pegar alguém pela mão é nobre, assim como é descobrir a causa de todas as suas próprias dores e curá-las. Uma por uma.


Um mundo de pessoas que não precisam fugir de si mesmas é um lugar que ainda não conhecemos.


Talvez seja esse o começo de travar batalhas verdadeiras para vencer por definitivo.


Ou o começo da vitória de quem soube se curar para ensinar outros a fazer o mesmo, à sua maneira.


(Olinto Vieira)

Singular

Você vê seus defeitos, sabe deles. E digo você na primeira pessoa do singular, para me esconder um pouco, pois não sou de ferro.


Conhece suas teorias de tapar buracos com isopor. Entende como ninguém fingir estar de olhos fechados. Vive sua agonia mas se acostumou com sua beleza, ela não te satisfaz. 


Seu atrativo é desconhecido, é esse cotidiano, como o homem antigo que lia a coluna policial no jornal de cada dia. Jornal novo, sangue velho.


Para suportar a vida é preciso ser herói, é preciso ter superpoderes de acordar toda manhã e fazer um desenho novo com o traçado dos pés.


(Olinto Vieira)

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

A casa sou eu


A casa ruirá, se desgastará com o tempo. Aliás, todas as casas. Elas serão construídas,  inauguradas, abrigarão histórias, famílias , amores e serão  postas abaixo.

Serão pintadas, pintadas de novo, terão flores e plantas; cerimônias de toda a espécie. Novo piso e teto. Depois serão destruídas.

Homens vão morrer e isso é tragicamente natural e compulsório. Todos os homens, incluindo o tolo e o sábio.

A luta de classes será só de um nivel, e sem direito a reivindicações ou pauta. Haverá uma fogueira de máscaras que se dissolverá sem fumaça ou cinzas.

E de longe pensaremos no esforço desperdiçado, no sorriso falso, nas discussões   sem sentido, nas horas perdidas sem encontrar por quê.

Ano novo daqui alguns dias será velho e na realidade é o que esperamos. Que passe o tempo e Deus nos abençõe para comprar uma casa nova. Que um dia será destruída para o novo que virá.

Em todos os lugares do mundo, centenas de anos passados , houve luta por uma vida melhor, pessoas, animais, hora do almoço,  que hoje mudaram de cenário.

Importa o que fica para sempre, o que nunca poderá ser destruído.  Amor, paz, amizade, alegria, família, Deus!

(Olinto  Vieira)

sexta-feira, 29 de novembro de 2019

Deus, Deus meu

Deus, Deus meu
Sei que muito ganhei
E ganho a cada dia

Mas tambem sei das renúncias que cortam minha alegria.

Do frio de minha terra, das noites de música  e sono, que perdi com ponta de angústia.
 Deus, Deus meu!

Perdoe a ingratidão, do pão sagrado que ganho
De amigos sinceros que tenho e essa vontade insana de ir embora pra longe.

Deus, Deus meu. Deveria render-te graças, deveria erguer as taças em uma vibração sem fim.
Deveria  dizer o seu nome em tudo que há em minha vida.
Vejo clara sua mão
a mim estendida.
Deus, Deus meu

(Olinto 
Vieira)

Céu de Brigadeiro

Céu de brigadeiro,
chuva de lavar
levando,
sol do meio dia.

Lá embaixo,
o homem andando.
Tece planos
enquanto o Universo
espera, se expandindo
Gradual.

O homem não sabe;
O homem tem certeza;
O homem acha;
O homem nem pensa;
Alguns imaginam
Em outros, dormência.

O  infinito não é maior que o homem.
Quantifique isso!

Nem a natureza
em cor,
em harmonia
em beleza,
é maior que o homem.

O homem mau que
aprende a amar
É a mais alta alquimia.

A transformação
mais sublime.

O verdadeiro Ouro
A tradução do Azul
O brilho da luz.
Um dia depois de
Outro dia.

O homem inimigo
trama, erra
Machuca, faz mal.

Um dia,  para.
Se depara consigo
Reflete.
Vê.
Se assusta.
Chora.
Chora.
Corre e abraça
Pede perdão.
Dá a mão
Baixa a guarda.

Nenhum fenômeno da natureza supera essa mudança.

Aprender amar é a verdadeira expansão
do Universo.

( Olinto Vieira)

Dezenove de Julho

O que fiz nessa vida
de triste porém necessário,  e o fiz sem conforto;  por nobre missão de filho ?
Carregar o caixão do pai morto.

Foi uma terça ou quarta feira, e eu recebendo as pessoas. Os amigos tambem que eram dele, alguns com olhar absorto, olhando o rosto sem vida, no caixão do meu pai, já morto.

Nesse dia de despedida, homenagens da terra natal, oitenta anos de amigos, e eu procurando um porto, encontrava sem querer os meus olhos, na Acácia Amarela juncada no caixão do meu pai, corpo morto.

E o relógio parado no tempo, na manhã que nunca terminava. Meus irmãos, minha mãe, meus tios, meus primos, minha tia mais velha, abalada, triste,  um jeito afoito, conversando com o irmão mais novo, o meu pai, que jazia morto.

E na hora, às cinco da tarde, ritual  Justo e Perfeito,  torcemos os parafusos, cuidadosos subimos o horto, só  aí desatei-me no choro. Despedi do meu velho pai morto.

( Olinto Vieira)

domingo, 24 de novembro de 2019

Ser Feliz

Feliz

Ser feliz na espera.
Ser feliz de espera
Ser feliz desespera
Ser feliz não é orgasmo, dinheiro, mergulho.

Ser feliz sem segredo.
Nem euforia, viagem, barulho.

Nem a alegria falsificada, momento. Festa lá fora e depressão aqui dentro.

Sê feliz, não julgue
Sê feliz, não ironize
Sê feliz, não cult
Sê feliz, se sensibilize.

Sê feliz, compreenda
Sê feliz, esteja em paz
Sê feliz, sem contenda
Sê feliz, faça mais.

É ter tempo, e ele esta aí. E dentro dele,  ter tempo para si.

 É preferir amor real!
É renunciar, se preciso. Mesmo sozinho na nau.
Felicidade sem guizo.

Ser feliz não é flórida.
Ser feliz é saber somar .

Nem chantagem
Nem bagagem
Nem o último tipo
Lap top, android, lipo.

Ser feliz é para mim o que sei e para você pode ser o que falei.

(Olinto Vieira)

sexta-feira, 22 de novembro de 2019

Todo mundo precisa de feedback

Essa foi a primeira postagem do OLINTO BLOG, em 13 de Outubro de 2008. Publicando de novo, para ver se tem ainda alguma coisa a ver.

 "Outro dia presenciei uma cena interessante e que reflete uma “globalização”de costumes, que vem se manifestando de forma inusitada e surpreendente. 

Passei em frente a uma construção e um pedreiro gritava para o ajudante assim: 

Ei Zé, não sobe para a laje agora não, fica de stand-by aí embaixo...

Achei engraçado ele utilizar um termo em inglês, de uma forma assim natural! 

Hoje em dia todo mundo quer parecer esperto, inteligente e na moda.  Recebi um e-mail de um leitor e resolvi abrir com vocês as críticas que ele me fez, que tem tudo a ver com o diálogo do pedreiro. 

Claro que fiz algumas adaptações para dar uma “ilustrada”, mas a essência permanece:

 “ Caro colunista, outro dia, lendo sua coluna, tive um insight interessante a respeito do isolamento que nós estamos aqui na Amazônia. É isso mesmo. 

O mundo dito ‘civilizado’ nos relega a um plano underground meio cult meio trash e se aproveita de um suposto distanciamento, criando as suas próprias filosofias a nosso respeito. 
Fazem um check-list de nossas pseudo necessidades e vem sempre com o mesmo discurso blasé, depreciativo e mascarado a respeito dos chamados povos da floresta. 

Olha colunista, a impressão que tenho é que estamos sempre em off; o fato de o mundo achar que somos undergrounds não é nem um pouco positivo para nós, pois a nossa voz não é marcante o suficiente para que tenhamos o necessário feedback. 

Todo mundo precisa de feedback, colunista! 

Hoje em dia as distãncias não separam nem isolam ninguém. Ta todo mundo linkado com as novidades e avanços do mundo moderno. Do Oiapoque ao Chuí. Engana-se quem pensa que somos menores ou inferiores a quem quer que seja.

 Estamos todos plugados, antenados ao que há de mais moderno. É só ver como andam lotados os Cyber´s e Lan-Houses daqui e de qualquer cidadezinha do interior desse estado (ou desse País).

Hoje em dia, todo caboclo que se preza tem home-page, orkut, messenger, senão tá out. Então, colunista, estou te dando esse feedback para que você possa, com seu feeling jornalístico, trazer assuntos menos regionais e mais abrangentes, focando um público mais in.
Sem mais, um leitor atento aos avanços do mundo.” 

Ao receber esse e-mail eu me lembrei imediatamente de uma música de um caboclo do Tocantins chamado Juraíldes da Cruz que fala assim: “Se farinha fosse americana, mandioca importada, banquete de bacana era farinhada. 

Andam falando que nóis é caipora, que nóis tem que aprender inglêis, que nóis tem que fazê sucesso fora. Deixa de bestaje, nóis nem sabe o portuguêis. 

Nóis somo é caipira pop. Nóis entra na chuva e nem móia, meu I love you, nóis é jeca mais é jóia.”