terça-feira, 27 de outubro de 2015

Grandes (Álvaro de Campos)

Grandes são os desertos, e tudo é deserto.  
 Não são algumas toneladas de pedras ou tijolos ao alto  
 Que disfarçam o solo, o tal solo que é tudo.  
 Grandes são os desertos e as almas desertas e grandes  
 Desertas porque não passa por elas senão elas mesmas,  
 Grandes porque de ali se vê tudo, e tudo morreu. 
 Grandes são os desertos, minha alma!
 Grandes são os desertos. 
 Não tirei bilhete para a vida,
 Errei a porta do sentimento,
 Não houve vontade ou ocasião que eu não perdesse.
 Hoje não me resta, em vésperas de viagem,
 Com a mala aberta esperando a arrumação adiada,
 Sentado na cadeira em companhia com as camisas que não cabem,
 Hoje não me resta (à parte o incômodo de estar assim sentado)
 Senão saber isto:
 Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
 Grande é a vida, e não vale a pena haver vida, 
 Arrumo melhor a mala com os olhos de pensar em arrumar
 Que com arrumação das mãos factícias (e creio que digo bem)
 Acendo o cigarro para adiar a viagem,
 Para adiar todas as viagens.
 Para adiar o universo inteiro. 
 Volta amanhã, realidade!
 Basta por hoje, gentes!
 Adia-te, presente absoluto!
 Mais vale não ser que ser assim. 
 Comprem chocolates à criança a quem sucedi por erro,
 E tirem a tabuleta porque amanhã é infinito. 
 Mas tenho que arrumar mala,
 Tenho por força que arrumar a mala,
 A mala. 
 Não posso levar as camisas na hipótese e a mala na razão.
 Sim, toda a vida tenho tido que arrumar a mala.
 Mas também, toda a vida, tenho ficado sentado sobre o canto das camisas empilhadas,
 A ruminar, como um boi que não chegou a Ápis, destino. 
 Tenho que arrumar a mala de ser.
 Tenho que existir a arrumar malas.
 A cinza do cigarro cai sobre a camisa de cima do monte.
 Olho para o lado, verifico que estou a dormir.
 Sei só que tenho que arrumar a mala,
 E que os desertos são grandes e tudo é deserto,
 E qualquer parábola a respeito disto, mas dessa é que já me esqueci. 
 Ergo-me de repente todos os Césares.  
 Vou definitivamente arrumar a mala.  
 Arre, hei de arrumá-la e fechá-la; 
 Hei de vê-la levar de aqui,
 Hei de existir independentemente dela. 
 Grandes são os desertos e tudo é deserto,
 Salvo erro, naturalmente.
 Pobre da alma humana com oásis só no deserto ao lado! 
 Mais vale arrumar a mala.  

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