segunda-feira, 17 de abril de 2017

Aos que virão

Como sei pouco, e sou pouco,
faço o pouco que me cabe
me dando inteiro.
Sabendo que não vou ver
o homem que quero ser.

Já sofri o suficiente
para não enganar a ninguém:
principalmente aos que sofrem
na própria vida, a garra
da opressão, e nem sabem.

Não tenho o sol escondido
no meu bolso de palavras.
Sou simplesmente um homem
para quem já a primeira
e desolada pessoa
do singular - foi deixando,
devagar, sofridamente
de ser, para transformar-se
- muito mais sofridamente - 
na primeira e profunda pessoa
do plural.

Não importa que doa: é tempo
de avançar de mão dada
com quem vai no mesmo rumo,
mesmo que longe ainda esteja
de aprender a conjugar
o verbo amar.

É tempo sobretudo
de deixar de ser apenas
a solitária vanguarda
de nós mesmos.
Se trata de ir ao encontro.
(Dura no peito, arde a límpida
verdade dos nossos erros.)
Se trata de abrir o rumo.

Os que virão, serão povo,
e saber serão, lutando.

Thiago de Mello

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Linguagem chula nas músicas banalizou!

Em tempos de Victor Chaves e José Mayer, as vezes esquecemos de onde surgem sutilmente a permissividade e banalização com o vulgar, com o xulo e com a falta de respeito. Segue texto antiiiiigo de José Teles, que publiquei aqui e com a atualidade do tema ( abuso sexual, como começou?), publico novamente. 

"Tem rapariga aí?"

Amigos, encontrei um texto, que, de certa forma, revela o meu sentimento a respeito de uma chaga que aumenta a cada dia.

Por isso transcrevo e republico, na íntegra, o texto de José Teles, publicado no JC online, de 07 de maio de 2008.

“TEM RAPARIGA AÍ?"

" Tem rapariga aí? Se tem levante a mão!’. A maioria, as moças, levanta a mão. Diante de uma platéia de milhares de pessoas, quase todas muito jovens, pelo menos um terço de adolescentes, o vocalista da banda que se diz de forró utiliza uma de suas palavras prediletas (dele só não, e todas bandas do gênero).


As outras são ‘gaia’, ‘cabaré’, e bebida em geral, com ênfase na cachaça. Esta cena aconteceu no ano passado, numa das cidades de destaque do agreste (mas se repete em qualquer uma onde estas bandas se apresentam).


Nos anos 70, e provavelmente ainda nos anos 80, o vocalista teria dificuldades em deixar a cidade.

O secretário de cultura Ariano Suassuna foi bastante criticado, numa aula-espetáculo, no ano passado, por ter malhado uma música da banda Calipso, que ele achava (deve continuar achando, claro) de mau gosto. Vai daí que mostraram a ele algumas letras das bandas de ‘forró’, e Ariano exclamou: ‘Eita que é pior do que eu pensava’. Do que ele, e muito mais gente jamais imaginou.


Para uma matéria que escrevi no São João passado baixei algumas músicas bem representativas destas bandas. Não vou nem citar letras, porque este jornal é visto por leitores virtuais de família.


Mas me arrisco a dizer alguns títulos, vamos lá: Calcinha no chão (Caviar com Rapadura), Zé Priquito (Duquinha), Fiel à putaria (Felipão Forró Moral), Chefe do puteiro (Aviões do forró), Mulher roleira (Saia Rodada), Mulher roleira a resposta (Forró Real), Chico Rola (Bonde do Forró), Banho de língua (Solteirões do Forró), Vou dá-lhe de cano de ferro (Forró Chacal), Dinheiro na mão, calcinha no chão (Saia Rodada), Sou viciado em putaria (Ferro na Boneca), Abre as pernas e dê uma sentadinha (Gaviões do forró), Tapa na cara, puxão no cabelo (Swing do forró).

Esta é uma pequeníssima lista do repertório das bandas.

Porém o culpado desta ‘desculhambação’ não é culpa exatamente das bandas, ou dos empresários que as financiam, já que na grande parte delas, cantores, músicos e bailarinos são meros empregados do cara que investe no grupo. O buraco é mais embaixo. E aí faço um paralelo com o turbo folk, um subgênero musical que surgiu na antiga Iugoslávia, quando o país estava esfacelando-se.
Dilacerado por guerras étnicas, em pleno governo do tresloucado Slobodan Milosevic surgiu o turbo folk, mistura de pop, com música regional sérvia e oriental.
As estrelas da turbo folk vestiam-se como se vestem as vocalistas das bandas de ‘forró’, parafraseando Luiz Gonzaga, as blusas terminavam muito cedo, as saias e shortes começavam muito tarde.
Numa entrevista ao jornal inglês The Guardian, o diretor do Centro de Estudos alternativos de Belgrado, Milan Nikolic, afirmou, em 2003, que o regime Milosevic incentivou uma música que destruiu o bom-gosto e relevou o primitivismo estético. Pior, o glamour, a facilidade estética, pegou em cheio uma juventude que perdeu a crença nos políticos, nos valores morais de uma sociedade dominada pela máfia, que, por sua vez, dominava o governo.
Aqui o que se autodenomina ‘forró estilizado’ continua de vento em popa.Tomou o lugar do forró autêntico nos principais arraiais juninos do Nordeste. Sem falso moralismo, nem elitismo, um fenômeno lamentável, e merecedor de maior atenção. Quando um vocalista de uma banda de música popular, em plena praça pública, de uma grande cidade, com presença de autoridades competentes (e suas respectivas patroas) pergunta se tem ‘rapariga na platéia’, alguma coisa está fora de ordem.
Quando canta uma canção (canção ?!!!) que tem como tema uma transa de uma moça com dois rapazes (ao mesmo tempo), e o refrão é ‘É vou dá-lhe de cano de ferro/e toma cano de ferro!’, alguma coisa está muito doente. Sem esquecer que uma juventude cuja cabeça é feita por tal tipo de música é a que vai tomar as rédeas do poder daqui há alguns poucos anos. “


José Teles.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

SEJA GENTIL COM OS ARTISTAS

    Não espere a sorte de ser anunciado no jornal nacional quando morrer, se você foi um pai de família, um homem comum como eu, de erros e acertos. Talvez nem seja sorte, na realidade não é  nada, uma simples notícia esquecível.  Mas não se revolte  quando um poeta morrer,  ser anunciado aos quatro cantos. Ou um músico, um homem das artes. Um poema, uma música, salva uma vida! Salva muitas vidas; faz o suicida dar um passo atrás, faz o homicida lembrar-se menino, ameniza as dores do cárcere, reduz o terror das guerras nas noites de vigília. Embala o sono da criança que nunca esquece a melodia suave. Seja paciente com os artistas, eles são o bálsamo do mundo desassistido, deletado pelos homens vis. Sobram os artistas para entender a alma dos homens maus e conceder-lhes a mesma oportunidade de serem crianças, de amolecer o coração e lhes lembrar que já foram flores antes de serem espinhos. Seja paciente com os artistas, que não são melhores que ninguém mas merecem mais do que eu um momento a mais de despedida pois eles sofrem muito mais com os famintos e sedentos do mundo. Ninguém como eles para sentir o frio que o mendigo sente andando a esmo pelas rodovias, com fome e sem destino. Seja paciente com os artistas pois a eles foi concedida a honra de morrer de amor.

Ter uma filha de 11 anos


  1. Tenho uma filha que irá fazer 12 anos em Fevereiro e apesar da maturidade demonstrada em várias oportunidades, com inusitados conselhos, intervenções importantes em algumas atitudes que eu queria tomar ( e Graças a Deus não tomei), se mostra , para meu contentamento, ainda imune às vivências precoces que o mundo criou em seu eterno estudo de rotular fases. Criança, pré adolescente, adolescente , jovem, adulto, terceira idade e agora , "melhor idade". Da cabeça de quem saiu isso ninguém sabe. Certo. Veio de uma comissão, que achou legal, passou no crivo da mídia e se afixou na mentalidade sempre absorssiva da opinião pública, que aceita como uma verdade absoluta e nem questiona. Não funciona muito assim comigo. Até porque minha filha tem 11 anos e faz questão, querendo eu ou não, de ser criança. E isso não quer dizer que seja uma boba, muito pelo contrário.  Simplesmente gosta de correr, ler, ouvir músicas de Selena Gomes, comer doces, pizza, estar com meninas da idade e pensamento dela. É uma criança que ainda não se preocupa com namorado, festas ou ficar até tarde na rua. Se está pulando ou queimando etapas? Não sei. Sei que ela sabe de suas responsabilidades e tem liberdade e abertura para conversar sobre todo e qualquer assunto comigo. Nos vemos todos os dias ( ela mora com a mãe) e quando estamos juntos, respeito à privacidade dela e vice e versa. Mas existe "abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim" e também "duras" quando é preciso pois o temperamento é forte. Sem manual. Sem receita. Muito amor, muita vontade de vê-la sempre feliz ( mera ilusão) mas sei que naturalmente a vida tem muitos perigos que somente aos filhos cabem resolver. O quanto eu puder fazer para fortalecê-la já me faz muito feliz, além de ver o amor estampado no rosto dela, o que não tem preço. Um beijo, com muito amor e um abraço que quebra qualquer resistência. Ser pai e ter uma filha. Ser filha e ter um pai.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

O REINO DE TEMBAKAU


Em uma pequena cidade entre as montanhas de um pequeno Vale, há muitos anos atrás, vivia um povo bom. Ordeiro, simples, nostálgico, amigo e pacífico. Porém, esse povo tinha um pequeno defeito.  Não sabia de sua própria força. Sempre achava que o vizinho tinha mais capacidade do que ele. Por causa desse defeito,  instalou-se uma praga. Todas as pessoas nasciam cegas. Não podiam ver. E enquanto mais os olhos eram deficientes, mais a boca se agigantava. Aproveitando-se dessa deficiência, os governantes, mesmo cegos, sugavam cada vez mais do já sofrido e inerte povo. Tantas foram os desmandos que  Deus lançou um desafio. Quando mais seu povo crescia, mas seus governantes se apequenavam. Tembakau era única.   Tinha personagens peculiares. E muitos diziam que a pena de não enxergar era injusta. Mas Deus sabe o que faz. Até que um dia, os governantes de Tembakau se tornaram anãos. Anãos de 70 centímetros. Mas o povo não podia ver isso, porque era cego. Eles se sentiam pequenos pois recebiam visitas de outros povos e mesmo sem poder ver, o sentimento era de diminuição e devoção ao que vinha de fora. O Tembakausense típico era generoso, solidário e de uma paz que remontava os idos de sua criação. Pessoas silenciosas que acolhiam aprazivelmente quem lá se aportava. Pelo tratamento especial com os visitantes, muitos deles foram cativados e resolveram lá viver. Uns, se integraram plenamente à cidade, o jeito das pessoas, costumes e até mesmo as qualidades. Outros nem tanto. Foram acolhidos e mesmo sem raízes no Município, com a índole malevolente e externa, passaram a instalar o ódio pelo povo da cidade, antes ordeiro. Os que assim agiam, aproveitavam-se de que não eram cegos e podiam enxergar astuciosamente, foram ensinando alguns moradores a como enxergar também. Passaram então a aliciar aquelas pessoas que não tinham o sentimento tão puro como a maioria e essas pessoas foram corrompidas, passaram a ver e assim, torraram-se cupinchas dos que chegaram e foram de boa vontade abraçados pelos tembakauenses de raiz. Esses forasteiros sem história no povoado criaram uma aura de falsa moral,  forjaram relacionamentos carcomidos pela aparência, pela devassidão, pela degradação moral, pela perversão de costumes, espalhando ódio e ironia diabólica entre as famílias de anões que antes viviam em paz. O povo continuava sem saber de sua real força e foram dominados pelo medo e confundidos pelo sentimento de confronto entre si mesmos. A cidade então passou a não crescer, ficando anã, como seu povo. Outro fenômeno se sucedeu. Os desordeiros que visavam apenas o poder e a discórdia, com o passar do tempo diminuíram de tamanho e passaram a se chamar epalburuk. Mas o povo já estava tão acostumado com sua presença que o tinham como heróis, enquanto isso, o que antes era uma cidade de honra e glória, passou a ser de desordem e retrocesso, desvirtuando-se em ironias, chacotas, deboches, maldades , tudo fomentado pelos epalburuk. Se em terra de cego quem tem um olho é rei, imagine quem tem os dois.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Justiça

"Há só uma presença aqui - a da Justiça. A Justiça reina. Todos os atos aqui praticados são regidos e inspirados pela Justiça."
Mas não essa pequena, rasa e cheia de falhas.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

LARGUEM OS ARTISTAS

Engana-se quem quer quantificar o quilate de um artista. Um poema pode salvar uma vida, um livro já fez isso. Como medir essa qualidade? Não temos que exigir nada dos artistas senão sua arte, que já é mais do que o necessário nos dias tétricos que vivemos, desde que o mundo é mundo. Já disse um deles que “A tristeza é senhora. desde que o samba é samba é assim. A lágrima clara sobre a pele escura. A noite e a chuva que cai lá fora. Solidão apavora. Tudo demorando em ser tão ruim. Mas alguma coisa acontece, no quando agora em mim. Cantando eu mando a tristeza embora.” Você entende o que o poeta disse? ou está perdido nos números ou na solidão do seu trabalho de sobrevivência, assim como eu? Que tralha de felicidade política é essa que as pessoas querem? A maioria nem sabe o que quer. Fala-se de paz, onde ela mora? Em que País, em que cidade, em que território ocupado? Paz, sim, eu vejo quando entro no mundo dos artistas. Lá sim, existe paz. Nada deve ser mais próximo do Divino do que a inspiração suada de um artista ao concluir uma grande obra. E tenho cá com meus botões que nenhuma obra prima é assim vista, mesmo depois de entregue ao mundo. Sofre o artista por querer se dar mais e mais. Querer ser melhor entendido. Falo do artista, não dos arremedos ou dos competidores ou dos cofres ambulantes. Falo do artista que nasceu com a missão de trazer momentos de paz e desacelerar esse mundo bisonho, perdulário, bêbado, competidor, escuro. Não que eu esteja querendo mais do mundo. Ele foi feito para ser assim e assim o é para nosso próprio bem. Para, nós, ostras,  aprendermos a produzir pérolas para um dia enfeitarem nossas janelas,  e sabermos contemplá-las sem mercantiliza-las. Engana-se o desprovido de ideias ao querer comparar os artistas com os outros habitantes do planeta. Eles sim tiveram que fazer isso e imagino como deve ter sido pesaroso para Fernando Pessoa ter sido editor, publicitário, ou Drummond,  editor, astrólogo,  jornalista, empresário. Manuel Bandeira não concluiu arquitetura por motivo da tuberculose, doença que o fez sofrer por toda uma vida. Guimarães Rosa, o grande poeta da prosa,   exerceu a medicina, Vinícius foi diplomata, assim como João Cabral de Melo Neto. Muitos não aguentaram como Pedro Nava, Florbela Espanca, Ernest Hemingway. Colocaram o ponto final, eles mesmos. Fiquei impressionado com a morte de um ator pouco conhecido, o americano Nick Santino, que pressionado pelos vizinhos, diante do barulho dos latidos do seu cachorro, e a insistência das reclamações, transtornado, matou o cão e se matou em seguida, deixando um bilhete que dizia  "Hoje eu traí e matei meu melhor amigo. Rocco confiou em mim e eu falhei com ele. Ele não merecia isso.” Eles, meus amigos, os artistas,  vivem em um outro mundo, alheios aos apatetados que levam a vida a olhar o umbigo vizinho, juntar dinheiro para ter uma vida que nunca terão e competir. Ou aliás, apenas competir. Essa vida da sobrevivência nos coloca muito distante de entender quem é nobre em uma arte. Os artistas se conhecem, se interagem, Drummond gostava de Chico Buarque, se deleitava com suas músicas. Quem é política para se meter nisso, é pequeno demais. Irrisório, insignificante. Como deve ser triste a vida desse Noblat, Miriam Leitão,  ou um artista que não se deu conta do artista que é e se envolve nas pantomimas de explicar o que no fundo, as pessoas já sabem desses políticos e dessa vida modorrenta que a gente vai levando, ‘que a gente vai levando, a gente vai levando essa vida’. Eles não. Eles sabem rir. Ou não tem medo de morrer. Então, deixem os artistas quando se lembrarem do ato ignóbil, pernicioso e corrupto da política. Deixem eles escolherem o que eles quiserem porque talvez em uma cena, uma música, um poema, uma dessas pessoas que a mídia massacra por migalhinhas, tenha feito mais pela humanidade do que nós faríamos em dez vidas, apontando erros e competindo. Nós, ridículos, querendo ser melhor que o pior. Esdrúxulo. É quase impossível alguém que vive aqui nesse nosso lado tedioso, entender como os artistas vivem. Eles estão vivendo para o nosso próprio bem. Para termos uma sombra no calor insuportável dessa vida, ou uma lareira no frio de doer os ossos. Nesse terreno tenebroso, são eles que trazem um riso, uma leveza, um conforto, um momento de felicidade. Mesmo que sejam três minutos de música, uma hora e meia de peça teatral, ou cinema; um poema que nos revela a alma. Larguem os artistas porque eles já nos largaram há séculos e deixaram sua alma em nós.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

FÁBULAS DE ESOPO - A LÍNGUA


Esopo era um escravo de rara inteligência que servia à casa de um conhecido chefe militar da antiga Grécia. Certo dia, em que seu patrão conversava com outro companheiro sobre os males e as virtudes do mundo, Esopo foi chamado a dar sua opinião sobre o assunto, ao que respondeu seguramente:

- Tenho a mais absoluta certeza de que a maior virtude da Terra está à venda no mercado. 
- Como? Perguntou o amo surpreso. Tens certeza do que está falando? Como podes afirmar tal coisa? 
- Não só afirmo, como, se meu amo permitir, irei até lá e trarei a maior virtude da Terra. 
Com a devida autorização do amo, saiu Esopo e, dali a alguns minutos voltou carregando um pequeno embrulho. Ao abrir o pacote, o velho chefe encontrou vários pedaços de língua, e, enfurecido, deu ao escravo uma chance para explicar-se. 




- Meu amo, não vos enganei, retrucou Esopo. A língua é, realmente, a maior das virtudes. Com ela podemos consolar, ensinar, esclarecer, aliviar e conduzir. Pela língua os ensinos dos filósofos são divulgados, os conceitos religiosos são espalhados, as obras dos poetas se tornam conhecidas de todos.
- Acaso podeis negar essas verdades, meu amo? 
- Boa, meu caro, retrucou o amigo do amo. Já que és desembaraçado, que tal trazer-me agora o pior vício do mundo. 
- É perfeitamente possível, senhor, e com nova autorização de meu amo, irei novamente ao mercado e de lá trarei o pior vício de toda terra. 




Concedida a permissão, Esopo saiu novamente e dali a minutos voltava com outro pacote semelhante ao primeiro. Ao abri-lo, os amigos encontraram novamente pedaços de língua. Desapontados, interrogaram o escravo e obtiveram dele surpreendente resposta: 
- Por que vos admirais de minha escolha? Do mesmo modo que a língua, bem utilizada, se converte numa sublime virtude, quando relegada a planos inferiores se transforma no pior dos vícios. Através dela tecem-se as intrigas e as violências verbais. Através dela, as verdades mais santas, por ela mesma ensinadas, podem ser corrompidas e apresentadas como anedotas vulgares e sem sentido. Através da língua, estabelecem-se as discussões infrutíferas, os desentendimentos prolongados e as confusões populares que levam ao desequilíbrio social. Acaso podeis refutar o que digo? indagou Esopo. 


Impressionados com a inteligência invulgar do serviçal, ambos os senhores calaram-se, comovidos, e o velho chefe, no mesmo instante, reconhecendo o disparate que era ter um homem tão sábio como escravo, deu-lhe a liberdade. Esopo aceitou a libertação e tornou-se, mais tarde, um contador de fábulas muito conhecido da antiguidade e cujas histórias até hoje se espalham por todo mundo.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Vamos falar de política?

Ta bom, vou falar só um pouquinho de um assunto que disse que não trataria por aqui. Acho o "impichmento" da Dona Dilma um contrassenso; eu acho um extremo equívoco. Por falar em equívocos, está certo, concordo que ela foi e está sendo um. E mais. Fez despertar o que de mais perigoso pode haver em uma sociedade que pretende se primar pela Ordem e Progresso. A volta de uma direita que já estava quase apagada. Não a direita em sua origem, que são as pessoas conservadoras que defendiam o tradicionalismo, a "hierarquia social" e depois deu vazão aos radicais, racistas, preconceituosos e que não vêem que tudo isso desagua em um banho de sangue onde a vingança acaba sendo o principal motivador das atitudes dos governantes e déspotas. Fez acabar também com a esquerda, que inicialmente era o sonho da igualdade social,  da liberdade de expressão, do fim das injustiças sociais e dos privilégios de uma classe dominante e que hoje desandou quando entraram na caverna do Ali-Babá e viram o ouro cintilando. Ficaram cegos. Petrobrás, só nossa???? Ideologia ficou para trás. Não estou falando da Revolução Francesa. Ja estou falando do Brasil, onde a esquerda hoje reúne movimentos sociais, das chamadas "minorias", e etc e tal. Muitos se colocam como vítimas e acham cômodo transferir culpas. Ordem, ao meu ver, diferente do que muitas pessoas pensam, é necessário ser imposta. Não adianta querer fugir disso. Haja esquerda, direita, centro, lateral direita, seja o que for,  tem que haver disciplina, regras, imposição de conduta. Por que não se vê carros corriqueiramente andando na contramão na rua 14, rua 10, Rua do Comércio? Porque as pessoas já se acostumaram com essa imposição das leis de trânsito. Ordem não é um superior hierárquico mandar um serviçal calar a boca ou utilizar censura, ou fazer as coisas sem uma motivação de interesse público. Alcança-se Ordem com respeito e naturalidade. É o líder natural que estabelece a Ordem de forma tranquila. Somente a partir daí pode-se falar em Progresso. Isso em todos os níveis. Culturais, econômicos, políticos. Dentro de casa, em uma família que há ordem, onde cada um sabe o que faz, com respeito e harmonia, é certeza que haverá progresso, nos níveis mais elevados dessa palavra. Mas estamos falando do Brasil, onde a coluna da corrupção, da escassez de líderes ( isso até em nível mundial) e do jeitinho malemolente e da cultura da "ponta"  está cada vez mais forte e difícil de ser rompida. Esquerda e direita não existe mais. Não adianta papo de querer voltar com regime militar, "porque ele que era o bom". Não funciona. O que funciona é algo que as pessoas gargalham quando se fala. Honestidade, moral e querer político de fazer o bem. Em um governo onde o que prevalece é a corrupção e a falta de bons costumes, quando há uma pessoa  honesta no meio, farão de tudo para atropelá-la ou manchar sua honra. Serão tentações mil. Um amigo disse sabiamente que a moral e a ética, (que resumidamente nada mais são do que fazer o certo, o que não corrompe a consciência)  é como se fosse uma estrada montanhosa e íngreme, onde se levam anos para subir 100 metros. Mas a desonestidade em um meio de perversão, para um honesto se sujar, é tão rápido como cair de um abismo de 100 metros. Poucos segundos. E o mar de lama em que se vive é de muito tempo. Há incautos que acreditam que tudo o que vivemos é denuncismo e perseguição. E há outros incautos que acreditam que fulano " colocaria a coisa nos rumos". Aos incautos eu digo que não adianta tentar se esconder, não adianta espernear, não adianta colocar a culpa em A ou B. O próximo governo do Brasil não acabará com a corrupção, infelizmente.Isso é um sistema implantado de forma muito profunda e que se alastrou. Leva tempo para corrigir. A responsabilidade toda disso tudo que vem acontecendo é nossa. Só nossa. Não é de Dilma, não é de Aécio, Lula, Collor, Zé Dirceu, Lava jato, militares. Nada disso, a culpa é única e exclusiva do povo, nossa. Nós colocamos aquelas pessoas lá. Não acredito nesse negócio de "Fulano de Tal não me representa". Representa demais. Mais do que se pensa. Se quisermos ter uma sociedade de honestidade, justiça, cultura, liberdade, respeito à Ordem e certeza de Progresso, comecemos já tirando as máscaras, comecemos já não transferindo culpas. O político errou, que se faça a justiça. Mas se acostumarmos a "impichar" de forma atropelada os maus governantes, sem usar o devido processo legal e utilizando ou mesmo fustigando o clamor público, viraremos um lugar impossível de viver.  Aí sim poderei dizer que acabou a democracia. Elegeremos outro que será "impichado", pelo precedente aberto e virará uma bola de neve. Doeu quando Pelé falou que brasileiro não sabe votar. Ele não tem o cabedal necessário para entender o que disse e nem no contexto e conjuntura que estávamos. Na época foi uma infelicidade atroz pois foi na época das diretas já. Mas eu pergunto agora. Sabemos votar? Qual o critério que utilizamos para eleger quem decidirá sobre nossa segurança pública, educação, saúde, cultura? Tudo isso sendo prioridade. Em quem você votou para deputado federal, estadual, senador? Para Prefeito e vereador é mais fácil lembrar. Acho necessário quem mergulhe fundo nas entranhas desse mundo das negociatas para revelá-las e desmoronar a coluna da corrupção. Mas não sou competente para fazê-lo. Procuro fazer a minha parte falando com as pessoas esse meu modo de pensar. Tristemente eu não me abalo com mais nada, enalteço algumas pessoas que colocam sua vida em risco cumprindo seu dever em um Brasil tão violento com categorias que deveriam ser muito bem remuneradas, como professores, policiais, agricultores. Acredito no Brasil e nos brasileiros pois vejo a quantidade de gente trabalhadora que em pouco tempo fez desse município o que ele é. Gente que vem de todas as partes do Brasil querendo trabalhar. Não acho que Impeachment seja o melhor caminho para a infeliz D. Dilma. Acho que ela deveria cumprir o seu mandato até o último dia, para que a gente possa aprender a saber escolher. E quando digo Dilma, estou colocando-a como representante do governante atrapalhado, para não ser leviano de julgá-la e respeitando o lugar que ela ocupa. Nós precisamos olhar mais no espelho. Eu sei que ninguém é perfeito e as escorregadelas do dia a dia provam isso. Mas se tivermos o hábito de olharmos no espelho a cada "errinho" cometido, e procurarmos escolher os governantes de forma séria, tenho certeza que um dia ainda seremos um País digno de se viver.