sábado, 18 de abril de 2009

O Choro de Pardal ecoa pela Amazônia

por Juliana Maués - do Banco de Informações da Rede Cultura do Pará

O pardal é o pássaro silvestre mais bem distribuído pelas diferentes áreas do planeta. Pode-se dizer que ele é tão comum que em quase todos os países do mundo é possível encontrá-lo. Mas Belém foi agraciada com uma variante única da espécie.


Luiz Pardal (Luiz Pereira de Moraes Filho), é um dos produtores e compositores mais promissores e aclamados da música paraense. O multiinstrumentista professor da Escola de Música da UFPA nos concedeu a entrevista abaixo em uma tarde chuvosa de janeiro – o que em Belém, nós sabemos, não especifica muita coisa. Dando continuidade à série de entrevistas sobre o Choro no Pará, conversamos sobre este gênero musical e a relação entre o popular e o erudito na formação do Chorão, dentre outras coisas. Boa leitura!

P - Como começou o seu interesse pelo Choro?

R - Eu sempre ouço, ouvi Choro desde criança. Morei em Altamira, morei em Castanhal e, nesses lugares, naquela época, se ouvia Choro na rádio; “Brasileirinho”, aquelas coisas do Waldir Azevedo, aquele Choro mais popular. E o meu interesse por Choro mesmo foi quando eu comecei a estudar violino, com nove ou dez anos de idade, e me disseram que o bandolim tinha a mesma afinação do violino, mi – lá – ré – sol, e que, se você toca violino, você toca bandolim. Aí, eu fiquei super interessado. Pedi pra minha mãe um bandolim de presente. Ela me arranjou um bandolim num sebo, assim, antigo. Quando eu vi, eu já sabia tocar mesmo, porque é igualzinho, mesma afinação, só que em vez de ser com o arco é com a palheta. E, como eu já gostava de Choro, eu comecei a comprar uma série de discos do Jacob do Bandolim, Lupércio Miranda, Joel Nascimento, daqueles grandes músicos, na época, e comecei a aprender aqueles Choros, menino ainda, com 12 anos, e pronto. Daí, não parei mais. Junto com o violino, eu sempre toquei bandolim.


P - A sua família é ligada à música?


R - Olha, não diretamente. Eu tenho um tio-avô que tocava bandolim, inclusive. Depois, a minha mãe arranjou esse bandolim com ele, que era dele e ficou pra mim. É um bandolim muito antigo que eu já passei pra minha filha, que toca bandolim também. Então, assim, não é exatamente uma tradição porque eu não conheci esse meu tio avô, é mais uma coisa natural em mim. Eu toco desde dois anos de idade. É uma coisa que já veio. Veio no sangue, vamos dizer assim.

P - Você toca vários instrumentos, mas tem mais apego a algum deles?


R - Ah, eu não tenho apego a nenhum, mas eu gosto de todos. Cada instrumento tem uma finalidade. Por exemplo, o Choro e o bandolim têm tudo a ver. A música erudita e o jazz têm muito a ver com o violino, eu gosto muito. A harmônica tem a ver com música popular e jazz também. O piano, eu gosto muito de tocar para compor. Para compor minhas coisas, eu gosto de compor no piano. Cada um tem uma finalidade, entendeste? Cada um tem o seu momento.


P - Nós podemos falar que o Choro tradicional sofreu modificações em relação ao Choro que é tocado hoje?


R - É. Tudo na vida tem que ter um seguimento, tem que ir pra frente. O que aconteceu com o Choro é que ele teve influência também do jazz. Então, se acumulou dentro do Choro tradicional uma linguagem mais moderna, harmônica. Tem a harmonia com o jazz, ritmos também brasileiros, fusão com outros ritmos, com baião... Então, teve modificação, sim, com certeza.


P - E os instrumentos? Foram agregados novos aos que eram utilizados originariamente?


R - Sim. Hoje em dia, se faz Choro com tudo o que é instrumento: guitarra, piano – piano sempre fez -, sintetizadores, usando contrabaixo elétrico, tem Choro sinfônico... Então, de tudo o que é jeito tem essa influência e agregação desses instrumentos novos.


P - Mas essas novidades são bem recebidas por quem faz o Choro tradicional, pelos Chorões mais antigos?


R - Sim, por alguns. Não, por outros. Alguns mais tradicionalistas não aceitam de jeito nenhum. Eu, por exemplo, gosto das duas coisas: gosto do Choro antigo, tradicional, e também, gosto do Choro moderno. Gosto de fazer as duas coisas. Acho que é um pé no passado e um pé no presente, no futuro, no que vem a ser o Choro no futuro. Se a gente ficar só naquele Choro tradicional, tradicional, tradicional, como é que fica a vida? A gente vai ficar coisa de museu a vida inteira? Agora, você precisa conhecer o Choro do passado para poder fazer o Choro do presente e do futuro. Tem que conhecer.


P - Há nomes de grupos que façam esse novo Choro que você possa citar?


R - Ah, tem vários. No Rio de Janeiro, se você sacudir uma árvore, caem vinte: “Nó em Pingo D’água”, “Água de Moringa”, que eu me lembre, assim, rápido. O “Galo Preto” já fazia uma coisa moderna. Esses são grupos do Rio de Janeiro. Aqui em Belém, tem vários grupos também. Tem uma garotada aí fazendo Choros com linguagem mais moderna. O grupo que a minha filha toca, que é o “Charme do Choro”, e o “Sapecando no Choro” também fazem; eu gosto de compor coisas modernas; tem o Jacinto Kahwage, que é um compositor, pianista de jazz, que também faz Choro moderno. Tem muita gente fazendo. Inclusive, tem gente levando o Choro brasileiro para os Estados Unidos, ensinando lá na Berklee. Ou seja, tem gente ensinando Choro na Berklee, que é uma escola de música famosíssima no mundo todo.


P - E se faz Choro no exterior também?


R - Pois é, se faz sim: nos Estados Unidos, na Europa. O Choro na Europa está uma febre. O que tem de brasileiro tocando Choro pra lá... E as pessoas ficam encantadas, porque o Choro é como se fosse o jazz – mas é uma coisa maravilhosa, o Choro. O que tem de gringo aí tocando, botando o Choro no seu repertório, não só o jazz, na Europa... No Japão, tem um movimento muito grande de Choro. Tem músicos do Japão que vêm aqui só pra estudar Choro. Passam dois, três anos morando aqui, depois voltam e fazem grupo de Choro lá. Israel tem, Estados Unidos tem, Europa inteira, como eu te falei, tem gente tocando Choro.


P - A origem do Choro é popular ou erudita?

R - Essa é uma pergunta difícil de te responder, mas eu penso assim: tem um pé naquelas coisas que vieram da Europa, com a mistura das coisas de Portugal, dos ritmos que nasceram no Brasil, dos que vieram da África. Tudo isso aí é o Choro. O Choro nasceu brasileiro. O Choro é uma música que nasceu no Brasil, um gênero brasileiro mesmo. Mas tem influência da polca, das mazurcas, coisas que vem lá da Alemanha. Tem influência da música portuguesa. Então, isso aí tudo teve influência da música erudita também. Händel já fazia aquelas danças, minuetos. Então, uma coisa vai levando à outra, vai misturando e chega aqui já de outra maneira. Então, pra dizer se a origem é popular ou erudita é uma coisa difícil. Tudo, eu acho que, no fundo, tem uma origem popular, de alguma maneira, que vem do povo e os mais eruditos pegam e transformam em uma coisa mais elaborada. Mas tudo vem assim, do povo.


P - Enquanto professor da Escola de Música da UFPA, você vê que há uma boa recepção dos ritmos populares, como o Choro, pela Academia?


R - Tem. O Choro é muito querido. O Choro tem a influência erudita. Influenciou grandes músicos como Ernesto Nazareth, que fez alguns Choros; Chiquinha Gonzaga, que era uma coisa meio erudita, meio popular; e o Villa-Lobos?, que é o mais importante de todos. O Villa-Lobos? é o mais importante, que era compositor e era um Chorão, que pegou toda essa linguagem dele (do Choro) e transformou em uma coisa mais elaborada, sinfônica. Mas não deixa de ser um Chorão. Por exemplo, aquela Bachiana dele, “Cantilena”. Conheces isso? É linda. Isso é um Choro. Tudo com um pé no Choro.


P - É válido afirmar que o Choro feito aqui no Pará é diferente dos demais locais do Brasil?


R - Olha, sobre isso foi feita uma pesquisa por uma professora chamada Maria José Pinto da Costa de Moraes, que, por acaso, é minha mulher...


P - Que, por acaso, nós já entrevistamos... R - (risos) Pois é. Isso é uma pergunta pra ser feita a ela de novo, porque é uma polêmica...


P - Mas, independente de comprovada essa diferença ou não, nós podemos dizer que, hoje, o Pará é uma referência no Choro?


R - Não tenha dúvida. Sempre foi. Nós sempre tivemos grandes Chorões aqui. É porque nós moramos muito longe, vamos dizer assim, do centro, o eixo Rio-São? Paulo. Mas, aqui, nós temos nosso movimento próprio. Aqui, existe a Casa do Gilson que tem um movimento muito grande de Chorões e é um lugar muito legal pra tocar Choro. Todo mundo que vem de fora se encanta com esse lugar, porque é lindo, é muito agradável de tocar Choro lá. Antigamente, tinha a Casa do Ademir, que era a casa do Choro também. Começou mesmo por ali o movimento. Mas sempre teve Chorões aqui. Então, hoje em dia, tem uma garotada tocando. Inclusive, as minhas filhas tocam também Choro. O Choro não morre e continua sempre, um passando pro outro e passando pro outro e, quem vai fazendo, vai se encantando.


P - Na sua opinião, quais são os maiores nomes do Choro, hoje, no Pará?


R - No Pará? Ah, tem muita gente importante. Tem o Adamor do Bandolim, meu compadre Adamor. Deixa eu ver, que é difícil a gente não esquecer, é tanta gente... Você tem aquele disco do Gilson? É bom você arranjar esse disco. Naquela listagem ali estão os principais Chorões do Pará: Nêgo Nelson, tem o Gilson... Agora, compositores, tem tanta gente... Entre músicos e compositores, é até difícil citar assim. Todo mundo é importante. Todo mundo faz o movimento. Todos nós fazemos o movimento do Choro aqui em Belém.


P - Gravaste algum CD próprio de Choro?


R - Gravei, de Chorinho. Por coincidência, CD de Choros da série Uirapuru. É um CD com 18 faixas, só com composições minhas. Tem Choro, tem Valsa, tem uma Polca, tem um Choro Canção. Tens que ouvir. Está lá tudinho.


P - Tens idéia de quantas composições já fizeste?


R - Não... No Choro, a gente vive fazendo Choro. De vez em quando, a gente faz um. Nesse CD tem 18, mas eu tenho muitos mais. Já dava pra fazer outro CD. Choro é assim: você chega em casa meio triste, aí você faz um Choro; você chega em casa com dor de dente, aí faz um Choro porque está com dor de dente e o nome do Choro é “dor de dente”. Então, é assim: tudo é motivo pra fazer um Choro. Por isso que os nomes são engraçados. O nome do primeiro Choro desse meu disco é “Chorando na cebola”. A minha mulher pediu pra eu cortar umas cebolas e eu comecei a lagrimar. Aí, saí de lá e fui logo fazer um Choro: “Chorando na cebola”. Então, é assim que é Choro. A minha cunhada morreu, mas ela era uma pessoa muito alegre, o apelido dela era Ticorica, aí eu fiz “Ticorica no Céu”. No dia que ela morreu, eu fiz esse Choro. No dia em que ela morreu, eu fiz um Choro alegre! Não fiz um Choro triste; fiz ela chegando no céu, não morrendo. Então, é assim que a gente vê o Choro.


P - Tens Choros cantados?


R - Tenho alguns.


P - Algumas pessoas reagem contra o Choro cantado. Como você vê essa questão?


R - Acho uma coisa errada. Acho que tem Choro-canção lindo. Mas, pois é, tem muito preconceito. Existia uma mulher, a Ademilde Fonseca, que fazia aqueles choros rápidos, cantava “Brasileirinho”. Já faz tempo que existe Choro cantado. Ela sofreu algumas retaliações por conta disso. Mas ela conseguiu respeito disso aí. Hoje em dia, o Choro já é mais um Choro-canção. Por exemplo, Tom Jobim: “Chega mais perto meu corpo bonito, chega mais perto meu raio de sol”. Isso é um Choro. Quer ver uma música que é Choro e ninguém sabe que é? “De noite, eu rondo a cidade a te procurar...” Isso é um Choro. Não parece, mas é. A estrutura dela é toda de um Choro. Tem muito Choro assim, que tu ouves e nem sabes que é. Eu mesmo já fiz vários Choros cantados. Geralmente quem canta meus Choros é a Andréa Pinheiro.


P - No momento, você está desenvolvendo algum trabalho relacionado ao Choro?


R - Na área do Choro, não. De vez em quando, eu faço um Choro para não perder a prática. Estou sempre compondo um Choro, mas agora eu estou fazendo doutorado, então, estou me dedicando mais a essa parte mais acadêmica, de estudar orquestração, a música erudita mesmo. Estou numa fase assim agora.


P - Tem mais alguma coisa que você gostaria de acrescentar sobre essa questão do Choro no Pará?


R - Só dizer que o Choro é uma coisa muito linda. Eu vejo o Choro como uma música muito bonita. O Choro, pra mim, é como se fosse uma rosa no meio de um jardim; um jardim de música, mas tem uma rosa, que é o Choro. No Choro, tem um sentimento que é difícil tu achares em outra música: a singeleza. Já ouviu falar nesse sentimento? Singelo. Tem Choros que são singelos. Esse sentimento, singeleza, é difícil tu veres em outro tipo de música. Tem numa valsa, numa canção, às vezes tem uma singeleza, mas um jazz, por exemplo, já não é uma coisa muito singela. Na música erudita, existe, mas é raro. No Choro, quase todo Choro é singelo. Você pode oferecer pra tua mãe, pro teu avô. Então, tem essa história.

4 comentários:

Eldan de Lima Nato disse...

Matéria de muito bom gosto, Olinto!
O que se refere a música de qualidade é sempre interessante.
Parabéns!

OLINTO disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
OLINTO disse...

E esse moço é um talento, Eldan.É um verdadeiro patrimônio da cultura do Pará. Grato pela visita!

Cosme Palheta disse...

Parabéns Olinto pela matéria, perguntas muito bem formuladas, simplicidade, talento e sentimento esse é o nosso Mestre Luiz Pardal.