segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

A violência, em cem anos

Angelo Patrício Stacchini Promotor de Justiça em São Paulo

"João Roque Reis embriagou-se hontem numa venda da rua Monsenhor Anacleto e de cacete em punho começou a aggredir os transeuntes, sendo por isso preso e levado á presença do 2º subdelegado do Braz." (jornal O Estado de S. Paulo, 19 de agosto de 1.896, 4ª - feira. Fonte: seção "Há um século", publicada no mesmo jornal, em 19 de agosto de 1996).

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"Os moradores da rua D. Luiza Macuco têm sido víctimas, nestas ultimas noites, dos amigos do alheio, os quaes, assaltando os quintaes tem roubado das capoeiras as melhores gallinhas que alli existiam." (jornal O Estado de S. Paulo, 21 de maio de 1.898, sabbado. Fonte: seção "Há um século", publicada no mesmo jornal, em 21 de maio de 1998).
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"Na 32ª Chacina do ano, cinco são mortos"

De acordo com os levantamentos da Secretaria da Segurança Pública, o número de pessoas assassinadas também vem aumentando. No último semestre do ano passado, 4.690 pessoas foram mortas. De janeiro a junho deste ano já foram registrados 5.298 homicídios em todo o Estado. (O Estado de S. Paulo, 19-8-1996 - Caderno "Cidades").
"Morte na periferia revela banalização da violência"

"Moradores encaram como rotina o encontro do corpo de desempregado em matagal."

"Quase meia-noite, e pouco mais de 50 pessoas aglomeram-se na beira de um matagal. Há mulheres, crianças e alguns jovens que se divertem com piadas. Todos se espremem, entre frases como ‘deixa eu ver’ ou ‘chega pra lá’. Instantes depois, o grupo começa a desfazer-se. Uma voz no meio da concentração define: ‘Acabou!’.
O foco de atenção da noite, o corpo de Juraci Pereira de Oliveira, de 33 anos, havia acabado de deixar o local, levado por um carro, o ‘rabecão’ do Instituto Médico-Legal (IML). A partir daí, Oliveira iria transformar-se em fração de estatísticas de mortes ocorridas na região metropolitana.
No fim de semana, foram 50 casos de homicídio. Apesar de elevado, o número não foge à média de contagens anteriores. Este ano, entre 30 de janeiro e 2 de fevereiro, o total de mortes violentas atingiu o recorde de 67" (O Estado de S. Paulo, 28-4-98, "Cidades").

O contraste que nasce da leitura comparativa das notícias acima transcritas, publicadas pelo mesmo jornal com a distância de um século, não pode deixar de chocar.

Em 1898 o ladrão de galinhas ("amigo do alheio", na graciosa expressão usada pelo repórter), terror dos "quintaes" e das "capoeiras", era notícia de jornal.

Em 1896, o "bêbado" que, "de cacete em punho", atacara os incautos moradores do então bucólico bairro do Brás, também justificava noticiário, com direito a título, em o Estado de S. Paulo.
Um século depois, em 1996, somente é notícia a ocorrência de uma "chacina", com vários mortos e requintes de atrocidade, geralmente cometida com o uso de devastadoras armas de fogo.
Houvesse, num fim de semana "apenas" um, dois ou até três homicídios, e muito provavelmente nem uma linha sequer seria publicada nos jornais da segunda-feira. A gravidade da morte de um ser humano, diante da escalada de violência que atinge a nossa sociedade, infelizmente não mais comociona, não choca mais. A morte violenta está banalizada. O valor da vida humana está relativizado.

"Sinal dos tempos"? Do "progresso" de nossa sociedade? É certo que não.

Vale a pena meditar um pouco sobre o tema, ainda que sem a pretensão de apresentar soluções, mas com o único intuito de despertar para a importância do assunto e para a gravidade da questão, aqueles que ainda não tiveram a oportunidade de pensar a respeito.

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