segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Estatuto do Homem

Thiago de Melo, um dos grandes poetas brasileiros vivos, escreveu o Estatuto do Homem, exilado em Santiago do Chile, ainda na época da ditadura militar:
Artigo 1- Fica decretado que agora vale a verdade, agora vale a vida e de mãos dadas marcharemos todos pela vida verdadeira;
Artigo 2- Fica decretado que todos os dias da semana, inclusive as terças-feiras mais cinzentas, tem direito a converter-se em manhãs de domingo;
Artigo 3 - Fica decretado que a partir deste instante, haverá girassóis em todas as janelas, que os girassóis terão direito a abrir-se dentro da sombra e que as janelas devem permanecer o dia inteiro abertas para o verde onde cresce a esperança;
Artigo 4 - Fica decretado que o homem não precisará nunca mais duvidar do homem, que o homem confiará no homem como a palmeira confia no vento, como o vento confia no ar, como o ar confia no campo azul do céu;
parágrafo único- o homem confiará no homem como um menino confia em outro menino;
Artigo 5- Fica decretado que os homens estão livres do jugo da mentira; nunca mais será preciso usar a couraça do silêncio nem armadura de palavras, o homem se sentará a mesa com seu olhar limpo porque a verdade passará a ser servida antes da sobremesa;
Artigo 6- Fica estabelecida durante dez séculos a pratica sonhada por Isaías que o lobo e o cordeiro pastarão juntos e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora;
Artigo 7- Por decreto irrevogável, fica estabelecido o reinado permanente da justiça e da claridade, e a alegria será uma bandeira generosa para sempre desfraldada na alma do povo;
Artigo 8 - Fica decretado que a maior dor sempre foi e será sempre não poder dar-se amor a quem se ama e saber que é a água que dá a planta o milagre da flor;
Artigo 9- Fica permitido que o pão de cada dia que é do homem o sinal de seu suor, mas que sobretudo tenha sempre o quente sabor da ternura;
Artigo 10- Fica permitido a qualquer pessoa, qualquer hora da vida, o uso do traje branco;
Artigo 11- Fica decretado por definição que o homem é o animal que ama, e que por isso é belo, muito mais belo que a estrela da manhã;
Artigo 12- Decreta-se que nada será obrigado nem proibido, tudo será permitido, inclusive brincar com os rinocerontes e caminhar pelas tardes com imensa begonia na lapela;
parágrafo único - Só uma coisa fica proibida: amar sem amor;
Artigo 13- Fica decretado que o dinheiro não poderá nunca mais comprar o sol das manhãs vindouras; expulso do grande baú do medo, o dinheiro se transformará em uma espada fraternal para defender o direito de cantar e a festa do dia que chegou;
Artigo Final - Fica proibido o uso da palavra liberdade, a qual será suprimida dos dicionários e do pantano enganoso das bocas; a partir deste instante, a liberdade será algo vivo e transparente como um fogo ou um rio, e a sua morada será sempre o coração do homem.

Um comentário:

marcos vinícius disse...

Esse Estatuto do Homem é um clássico, Olinto. Se todos nós tivéssemos a condição de tê-lo como espelho, o mundo seria outro. E o Thiago de mello é, na minha opinião, o nosso maior poeta vivo, e é daí do norte, do Amazonas, né?

Grande abraço!!