terça-feira, 14 de outubro de 2008

DOTÔRI

O texto abaixo foi escrito pelo psicólogo e escritor Lincoln Campos que se specializou no árduo ofício de recuperar seres humanos, portadores de sofrimento mental. Em suas andanças pelo sertão mineiro, incorporou a verve de Guimarães Rosa, transcrevendo de forma magistral os dialetos escondidos nos rincões deste País. Vamos ao texto:

"Então o caminho é de grande distancia. Seguindo no puerão pra mais de légua, íamo cumo novidade naquele sertão, passando pelos caminho, encontrando as mais da gente que oiava de ôio curioso. Quando as mais da vez sodava e inquiria do que a gente fazia naquele lonjurão, a gente respondia e seguia no carrêro que se num dava só pra um de vez, quem ia no diante tinha visage mas clara do seguinte, e nós que ia no detrás só via o pó no levante.
O suor descia na barriga fazendo gastura e o abafamento do dia era que nem puxa folgo d’água, no iniciar do caminho até o pessoal brincava para valê fazendo chacota uns cunsôtro, mas agora já no meio a fala num dava pra brincá. Ali num existia mais quem era de mandá o de recebê, tava tudo num só. Purisso que o nome do lugar é CRUZINHA no que diminui o nome pra gente vê que ainda tem carga pior. Lá já no adiantado passava nós nas furquia do caminho seguindo as menina do PSF que nem de rubor mostrava, no que a gente admirava e elas respondia: - VIX!! TAMO ACUSTUMADA DAQUI PRA MAIS.... Aquele povo todo de branco caminhano no filamento chegava clariá o dia cumo se assim fosse de precisão, um menino gritô lá do fundo do quintal, “VEM VÊ TEM MILHÕES DE GENTE ANDANO!!”.
Minha cabeça já tava no além dali, pensava nos escritório do governo na capital, das vez que lá fui, vi todo mundo vestino camisa de manga cumprida mesmo no calorão. Quando entrei já fui vendo aquele povão que nenhum sabia. O moço da portaria era assim bem vestido como lá diz: “estudado”, já na consulta de quem era eu, e assim logo me tascou um mostrador no meu bolso com palavrório nele. Logo vi que tava ali num lugar de gente escondedô, com muita palavra bunita e porta em muito demais. Tinha era muito subchefe, toda repartição que entrava num era ali, tinha de seguir mais um cadiquim adiante. Depois de uns tanto vê destanquei com a dona do que queria, por que eu mexo mesmo e cum desasnado, sem juízo, trapaiado, gente sem comporta mental, e sei que gosto muito da conversa deles. Assim a dona da repartição do governo me questiono o que eu queria, disse que vinha das banda de cá na busca de recurso para melhora a atendeção desse povo sem rumo. Ai ela disse que tinha então boas nova para relatar e falo que o governo tem manêra de ajudá mas que o município tinha que tê as despartida pra recebê.
- O que vem a sê essas despartida?
- Ora seu Zé, é contrapartida.
- Mas não quero nada contra não senhora, eu sô é do afavô.
- Deixa pra lá, mas o município tem quer ter: farmacêutico para receber os medicamentos para os portadores de sofrimento mental, médico psiquiatra para ter o dinheiro para atender os usuários, assistente social, enfermeiro, terapeuta ocupacional e psicólogos, tem que ter local com estrutura física aprovado pela vigilância sanitária.
- Mas dona num temo nada disso, só temo os duente, nem água direito nos temo para toma os comprimido.
- Mas vocês não tem condições de providenciar?
- Mas nós queremo é isso mesmo, purisso to aqui para pedi previdença.
- Como que vocês fazem hoje com os portadores de sofrimento mental?
- Ora lá nos num tem isso não sinhora, só tem os duente mesmo?
- Sim seu Zé é que hoje nos só usamos portadores de sofrimento mental para chamá-los.
- Mas só se fo us daqui da capital purque lá es são é doido mesmo, eu to falando duente para num desanimá muito a sinhora.
- Ta bom, mas o que vocês precisam e se organizar.
Foi então que eu sai dali pensando para ter dôto e priciso te dôto, pra te remédio é priciso dôto, pra te recurso e priciso te um tanto de dotô e pra te posto construido tem que te construção e ainda tem que te esse tal de portado pra consegui que os duente da cabeça tem tratamento. Ôseja tem qui tê tudo pra tê tudo!
Mas seguino na viagem... tava lá atrás cás memória sapecando na cabeça, pensando naquela dona da capital e bem imaginando ela andano pra quês mato afora. Coitada dela num durava um morro. Assim, assim nessa de lembra chegamo na casa de dona Tercila que de nome de batismo chamava Gercira mas mudô de nome. Casa toda escablefada, ruída de tempo. Esperamo na cerca e o vizinho foi no adiante para prepara a chegada, pois que ela lá tinha uma cachorra muito da brava de nome pimenta. Ouvi o grito dela lá de dentro para nos se chega. Ela disse então com a aquela boca cheia de faia, meu “dotôri” e abriu um sorrizão.
Sei lá sabe, mas penso que o governo com um tanto de dotô pudia consegui até mais, mas como diz pressas banda aqui, inhant lambê du que iscupí."

4 comentários:

ellen disse...

É assim mesmo, "num sai uma letra que dai faz falta".

Anônimo disse...

É nesse bramurão que o povo do vale vive. Boslsa de valor pra nós é aquela que tem um canivete e fumo de rolo pra fazê um paiêro.

Anônimo disse...

Eita q a convivênia é mesmo uma boa escola, pois num é q o texto parece um pouco trapaiado.
aprendeu direitinho né Lincoln.

Anônimo disse...

É meu nobre anônimo das 07:35. Como pode se notar, trata-se de um jeito de falar peculiar, caboclo. Quem de nós poderia dizer que tal forma de falar é errada? A língua portuguesa tem os seus padrões mas o nascimento de um idioma vem da linguagem falada, popular mesmo. Leia Guimarães Rosa, um dos melhores escritores brasileiros que, erudito, acadêmico ( médico de formação) traçou o seu estilo em uma linguagem tão "sertaneja" e "rupestre" que era quase incompreensível. Mas, afinal, ler é o grande lance...

Lincoln Campos